Liçōes de 2017 – Por Adriana Machado

Com o fim de mais um ano, somos naturalmente convidados a refletir sobre o que fizemos ou deixamos de fazer. Melhor ainda quando aprendemos com os acontecimentos e pautamos nossas prioridades para o próximo ano em temas relevantes e com um propósito em mente. Ao ler as conclusões do Banco Mundial em relação ao ano de 2017três temas chamam a atenção e inspiram a reflexão: talento, educação e resiliência. Vejamos o que aconteceu em 2017 nestas três frentes que pode servir de lição para 2018 e além.

Talento, ou capital humano, continua a ser destacado como o principal ativo para a geração de riqueza e crescimento econômico dos países e, consequentemente, da humanidade. Segundo o artigo do Banco Mundial esse potencial equivale a 65% dos ativos mundiais e inclui as habilidades, a experiência e o esforço da população. Entretanto, nem todos os países conseguem se beneficiar deste recurso da mesma forma. Ainda segundo o estudo, em países com baixa renda, o capital humano equivale a apenas 41% dos ativos.

O artigo também constata que, com a aceleração do desenvolvimento tecnológico, torna-se cada vez mais crítico e urgente investir em pessoas e promover qualificação. Este ponto tem sido destacado seguidamente por entidades como o U.S. Council on Competitiveness, que apesar de endereçarem suas considerações prioritariamente aos Estados Unidos, podem servir de orientação a todos os países que buscam melhorar sua competitividade.

Em seu Clarion Call de 2017, o tema talento figura novamente como prioridade e entre as recomendações feitas ao governo dos Estados Unidos e a todos os líderes empresariais daquele pais estão: crescer a quantidade e a diversidade de sua mão de obra educada em STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), estabelecer melhores oportunidades de aprendizado através da experiência como cooperativas e estágios, e reformular políticas para reter mais imigrantes qualificados.

Como podemos ver, talento e educação se complementam. Voltando ao artigo do Banco Mundial, vivemos um período de crise no aprendizado com centenas de milhares de crianças no mundo crescendo sem desenvolverem habilidades básicas. Segundo o estudo, menos de 1 em cada 5 crianças cursando o ensino fundamental em países mais pobres são proficientes em matemática e leitura. Esta carência de quantidade e qualidade em educação acentua ainda mais a desigualdade e a distância entre pessoas e países e limita fortemente a geração de inovação. 

No Brasil, segundo o Movimento Todos pela Educação, mais da metade das crianças brasileiras não estão alfabetizadas ao fim do 3o ano do Ensino Fundamental e, no ritmo que estamos seguindo levaremos 76 anos para ter 100% das crianças proficientes em leitura ao fim do 3o ano, ou seja, estamos diante de uma realidade que compromete o desenvolvimento do nosso Pais.

Se por um lado a realidade da educação no Brasil é dura e requer políticas adequadas e compromisso de Estado para enfrentá-la com determinação e perseverança, anima o fato de grande parte dos brasileiros procurarem aprender com as oportunidades que têm. Em pesquisa realizada pela Bookings.com, 74% dos brasileiros vêem as viagens a trabalho como oportunidade real de conhecer novas culturas e com isso crescer profissionalmente. Esse número está acima da média global de 60% e se complementa com outro dado da pesquisa que diz que durante uma viagem a trabalho 41% dos brasileiros esperam aprender uma habilidade nova que possam aplicar na função que desempenham.

Buscar aprender com a prática e tornar-se melhor na adversidade pode levar a resiliência. 2017 colocou em evidência a necessidade de trabalhar este tema com consciência e foco para lidar com o impacto negativo dos cada vez mais frequentes e intensos desastres naturais. Segundo o Banco Mundial, temos 4 vezes mais desastres naturais no mundo hoje do que na década de 60.

Andrew Winston aborda a questão em artigo publicado pela Harvard Business Review que destaca importantes eventos ocorridos em 2017 ligados à sustentabilidade. Segundo o autor, em 2017 as enchentes da Asia mataram mais de 1.200 pessoas, os furacões Harvey, Irma e Maria deixaram um rastro de destruição impressionante nos Estados Unidos e no Caribe, com Porto Rico ainda enfrentando falta de energia elétrica em mais de um terço do seu território e falta de água para cerca de 10% de seus habitantes 3 meses após o desastre. Além disso, ainda tivemos incêndios florestais de grandes extensões na California e um terremoto de magnitude 7.1 que deixou centenas de mortos no México.

O autor também destaca que os custos associados às mudanças climáticas ficaram mais óbvios. Para quem ainda tem dúvidas quanto à correlação entre mudanças climáticas e condições meteorológicas extremas, a leitura do relatório elaborado pela The National Academies of Sciences, Engineering and Medicine pode ajudar. Mais informações também no artigo de Heidi Cullen publicado no New York Times.

Com a decisão dos Estados Unidos de sair do Acordo do Clima de Paris, fica ainda mais evidente a importância de cidades e estados adotarem uma postura mais pro-ativa em relação ao desenvolvimento sustentável, à medição e redução de emissões de gases de efeito estufa, e à adoção de medidas que promovam resiliência.

Resiliência também é destaque no relatório “Unbreakable”, que diz ser necessário desenvolver resiliência socioeconômica para quebrar o ciclo de pobreza causada por desastres. De fato, não apenas governos são chamados a agir. Empresas também podem e devem ajudar a promover tanto resiliência quanto desenvolvimento sustentável de forma mais ampla. Para tanto, uma boa fonte de inspiração para ação é o “The Blueprint for Business Leadership on the SDGs“. Este guia foi desenvolvido pelo Global Compact das Naçōes Unidas em 2017 para ajudar os líderes empresariais a se engajarem no compromisso global de atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS/SDG) até 2030.

Em suma, dados para reflexão em 2017 e inspiração para ação em 2018 não faltam! Talento, educação e resiliência são temas importantes que podem e devem ser trabalhados individualmente e coletivamente, mas o que faz sentido para uns pode não fazer sentido para outros. Neste caso, uma meditação guiada para identificar o que realmente importa para você pode ser uma alternativa. No fundo, cada um de nós pode iluminar o mundo com sua luz própria e ser a mudança que gostaria de ver no mundo, como dizia Gandhi, e mesmo pequenas ações podem fazer a diferença.

Que as lições de 2017 sirvam de guia para a ação em 2018 e que possamos contribuir como for possível para melhorar o que estiver ao nosso alcance, buscando sinergias que tornem o impacto positivo cada vez maior. Feliz Ano Novo a todos!

 

 

Adriana Machado é natural da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro e possui formação em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UNB). Começou sua carreira como assistente de pesquisa trabalhando em projetos do Instituto de Pesquisa Aplicada – Ipea, Instituto de Estudos Políticos – Idesp e Fundação Ford. Além disso, trabalhou como consultora na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República do Brasil, e como conselheira política para os Estados Unidos da América na Embaixada Americana em Brasília. De 2001 a 2007, Adriana trabalhou para a Câmara Americana de Comércio para o Brasil – Amcham, em São Paulo, onde ocupou diversos cargos. De 2007 a 2009, atuou como diretora de Relações Governamentais da Intel no Brasil. Por fim, ingressou na GE em 2009, como diretora de Relações Governamentais e, em dezembro de 2011, tornou-se a primeira mulher na história da empresa a representar os negócios da multinacional no Brasil. De agosto de 2013 a julho de 2015 exerceu a função de Vice-Presidente para Assuntos Governamentais e Políticas Públicas para a GE na América Latina. Atualmente encontra-se em período sabático, participa como membro do Conselho da América Solidária US e mora em Miami na Flórida.

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